O Fantasma de Cheltenham

St. Anne’s, antiga Donore House, em Cheltenham
St. Anne’s, antiga Donore House

No início da década de 1880, uma família que vivia em Cheltenham, na Inglaterra, começou a relatar algo difícil de explicar: uma mulher alta, vestida de preto, que aparecia dentro e nos arredores da casa.

As testemunhas falavam de uma mulher usando roupas escuras, com parte do rosto escondida por um lenço levado à boca. Em algumas ocasiões, também eram ouvidos passos associados à sua presença.

O que tornou a história particularmente incomum foi sua duração e a quantidade de testemunhas. Durante anos, diferentes pessoas afirmaram ter visto ou ouvido fenômenos semelhantes.

A história chegou à Society for Psychical Research (Sociedade para Pesquisa Psíquica – SPR), uma organização fundada em 1882 para investigar relatos relacionados a fenômenos psíquicos e experiências consideradas inexplicadas. Um de seus pesquisadores, Frederic W. H. Myers, entrevistou pessoalmente os moradores e outras testemunhas.

Décadas depois, o caso continuaria sendo debatido. Surgiram explicações naturais, interpretações psicológicas e novas pesquisas sobre a história da própria casa.

O caso é um dos registros históricos de aparição investigados pela Society for Psychical Research (SPR). Uma história em que a documentação existe, mas a explicação continua aberta.

A história da casa

A residência ficava em Pittville Circus Road, no condado de Cheltenham, Gloucestershire, na Inglaterra, Reino Unido.

Construída em 1860, a casa passou por diversos nomes ao longo de sua história. Entre eles estavam Garden Reach, Pittville Hall e Donore. Atualmente, é conhecida como St Anne’s.

Os primeiros moradores associados à história foram Henry Swinhoe e sua família.

Depois da morte de sua primeira esposa, Henry se casou novamente, em 1870, com Imogen Hutchins. O relacionamento entre os dois se deteriorou nos anos seguintes. Documentos históricos posteriormente localizados registram separações e conflitos entre o casal.

Imogen deixou a residência antes da morte de Henry. Ela morreu em Clifton, em 23 de setembro de 1878, aos 41 anos.

Anos depois, quando uma aparição começou a ser relatada na mesma casa, Imogen seria associada à figura vista pelas testemunhas.

Mas essa identificação não aconteceu no momento em que os primeiros fenômenos foram observados. Ela surgiu posteriormente, a partir da história da casa, das informações obtidas pelos moradores e da semelhança percebida entre a descrição da aparição e fotografias de Imogen.

O primeiro encontro com a mulher de preto 

Em abril de 1882, o capitão Frederic William Despard, sua esposa Harriet e os filhos mudaram-se para a residência.

Entre os moradores estava Rosina Clara Despard, filha mais velha do capitão Frederick William Despard e principal testemunha dos relatos, então com 19 anos.

Cerca de três meses depois, em junho, Rosina afirmou ter tido o primeiro encontro com a figura.

Ela estava no andar superior quando ouviu alguém à porta de seu quarto. Pensando que poderia ser sua mãe, abriu a porta, mas não encontrou ninguém.

Pouco depois, ao avançar pelo corredor, Rosina viu uma mulher alta, vestida de preto, parada no topo da escada. Em seguida, a figura começou a descer os degraus.

Rosina a acompanhou por alguns instantes, mas a pequena vela que carregava nas mãos se apagou. Sem conseguir mais enxergar a figura, voltou para o quarto.

A descrição daquela primeira aparição estabeleceria o padrão que seria repetido nos relatos seguintes: uma mulher alta, vestida de preto, com o rosto parcialmente escondido por um lenço.

Segundo o relato posteriormente publicado pela Society for Psychical Research, Rosina teria visto a figura cerca de seis vezes durante os dois anos seguintes.

Os relatos se tornam mais frequentes

Ao longo de 1883, os relatos não ficaram restritos a Rosina. Outros moradores afirmaram ter observado uma figura semelhante à mulher que ela havia descrito, enquanto, em diferentes ocasiões, testemunhas também relataram ouvir passos dentro da casa sem conseguir localizar sua origem.

Em 29 de janeiro de 1884, Rosina afirmou ter tentado falar diretamente com a figura. Segundo seu relato, a mulher pareceu reconhecer sua presença, mas não respondeu verbalmente. Rosina descreveu apenas um pequeno som semelhante a um suspiro.

Em outra ocasião, teve a impressão de que a figura tentava responder, mas não conseguia.

Rosina também tentou verificar se a figura ocupava fisicamente o espaço. Para isso, colocou fios leves atravessando o caminho pelo qual a mulher costumava passar. Segundo seu testemunho, os fios permaneceram intactos quando a figura atravessou o local.

Também foram feitas tentativas de fotografar a aparição, mas nenhuma fotografia foi obtida com sucesso. A pouca iluminação da casa exigia um tempo maior de exposição, o que dificultava o registro da figura.

Durante julho e agosto de 1884, os relatos se tornaram ainda mais frequentes e passaram a envolver um número maior de testemunhas.

Outros moradores afirmaram ter observado uma figura semelhante.

Em diferentes ocasiões, testemunhas também relataram ouvir passos dentro da casa sem conseguir localizar sua origem.

A repetição desses relatos foi um dos elementos que posteriormente chamaria a atenção dos pesquisadores da SPR.

A investigação começa

Em 1884, os acontecimentos chegaram ao conhecimento de Frederic W. H. Myers, um dos integrantes da Society for Psychical Research.

A organização havia sido fundada naquele mesmo ano para investigar relatos de experiências psíquicas e fenômenos considerados anômalos.

O interesse da Society for Psychical Research não estava simplesmente em confirmar histórias de fantasmas. Seus pesquisadores buscavam reunir testemunhos, comparar versões e avaliar as circunstâncias em que os fenômenos teriam ocorrido.

No caso de Cheltenham, essa abordagem resultou em uma documentação muito mais detalhada do que a encontrada em muitas histórias sobrenaturais populares do período.

Os relatos chamam a atenção da SPR

Em 1885, os relatos continuaram. Uma das características recorrentes era a descrição da mesma figura feminina: alta, vestida de preto e com um lenço próximo ao rosto. Também continuaram os relatos de passos e outros sons associados à sua presença.

Nem todos os episódios foram testemunhados da mesma maneira, mas diferentes integrantes da residência forneceram seus próprios relatos. Esse conjunto de testemunhos seria posteriormente analisado por Frederic W. H. Myers.

Em 1886, Myers passou a visitar a residência em diferentes ocasiões. Ele entrevistou integrantes da família e outras pessoas que tinham conhecimento dos acontecimentos, dando atenção especialmente aos relatos que apresentavam elementos semelhantes entre diferentes testemunhas.

Myers também destacou Rosina Despard, descrevendo-a como uma jovem com formação científica que se preparava para estudar medicina. Considerou ainda que a família era relativamente livre de tendências supersticiosas.

Essas observações ajudam a entender por que o caso recebeu atenção da Society for Psychical Research, mas não transformam os testemunhos em prova de que uma entidade sobrenatural realmente estivesse presente na casa.

Quem era a mulher de preto?

Enquanto investigavam a história da residência, os Despard encontraram referências a uma antiga moradora: Imogen Swinhoe. Rosina acabou associando a descrição da mulher de preto à antiga moradora da casa.

Segundo o relato, ao ver uma fotografia, Rosina identificou uma possível semelhança entre Imogen e a figura que havia visto. A associação também ganhou força pelo fato de Imogen ter vivido na mesma residência anos antes e ter morrido quatro anos antes do primeiro relato de Rosina.

A partir dessas informações, surgiu a hipótese de que a aparição poderia estar relacionada a Imogen. No entanto, essa associação nunca foi comprovada. A documentação disponível registra a tentativa de identificar a figura com a antiga moradora, mas não comprova que a aparição fosse realmente o espírito de Imogen Swinhoe.

A própria Society for Psychical Research trata essa identificação como tentativa, e não como uma conclusão definitiva. Por isso, embora Imogen tenha se tornado parte central da história do Fantasma de Cheltenham, sua ligação com a figura permanece uma hipótese dentro dos relatos do caso.

O fim dos relatos e a publicação do caso 

Em 1887 a frequência das aparições começou a diminuir. Ainda foram registrados relatos, mas a figura passou a ser observada com menos frequência do que nos anos anteriores.

Por volta de 1889, os relatos da mulher de preto cessaram de vez. Segundo a Society for Psychical Research, depois desse período não foram registrados novos episódios enquanto os Despard permaneceram na residência. A família deixou a casa em 1892.

Em 1892, dez anos depois do primeiro relato de Rosina, a Society for Psychical Research publicou o caso. O trabalho recebeu o título Record of a Haunted House e foi assinado por R. C. Morton. “Morton” era o pseudônimo utilizado para preservar a identidade da família Despard.

O texto foi publicado no volume 8 do Proceedings of the Society for Psychical Research, entre as páginas 311 e 332. O relato de Rosina e os testemunhos de outras pessoas foram reunidos no documento.

O caso passou, então, a fazer parte do registro histórico da investigação de aparições realizada pela Society for Psychical Research.

Fonte primária: Record of a Haunted House — Society for Psychical Research

Outras interpretações para os relatos

Em 1958, o pesquisador G. W. Lambert publicou The Cheltenham Ghost: A Reinterpretation of the Evidence no Journal of the Society for Psychical Research. Lambert apresentou uma interpretação diferente para parte dos fenômenos, considerando a possibilidade de que determinados sons atribuídos à aparição pudessem ter origem ambiental, incluindo fenômenos relacionados à água subterrânea, além da influência de fatores psicológicos sobre a experiência das testemunhas.

Essa interpretação não explicou definitivamente todos os acontecimentos, mas representou uma tentativa posterior de compreender parte dos relatos por mecanismos naturais. A Society for Psychical Research continua listando o trabalho de Lambert entre as principais análises posteriores do caso.

Em 1970, Pamela M. Huby publicou New Evidence About “Rose Morton” no Journal of the Society for Psychical Research. O estudo tratou da identidade da principal testemunha, Rosina Despard, que havia sido protegida pelo pseudônimo R. C. Morton na publicação original. 

Esse tipo de investigação mostra que o caso não ficou restrito ao relato publicado em 1892. Documentos e testemunhos continuaram sendo examinados por pesquisadores posteriores.

Relatos posteriores na residência

Andrew MacKenzie publicou posteriormente Continuation of a Haunted House, reunindo relatos de episódios ocorridos entre 1970 e 1985. Segundo a Society for Psychical Research, esses episódios envolveram relatos de uma aparição semelhante à descrita no século XIX e fenômenos associados a poltergeist.

Esses relatos, entretanto, precisam ser separados do núcleo original da investigação. Não é possível afirmar que a mesma entidade tenha continuado aparecendo durante todo esse período. O que se pode afirmar é que novos relatos semelhantes foram posteriormente registrados e associados à história da residência.

Em 2021, Christian Jensen Romer publicou Revisiting a Haunted House: Gustav Holst and the Cheltenham Ghosts. O trabalho revisitou documentos históricos relacionados à residência, aos antigos moradores e aos acontecimentos associados à casa. A pesquisa acrescentou contexto à história e reexaminou informações que haviam sido repetidas por autores posteriores.

O estudo também chamou atenção para a forma como a história da residência e de seus antigos moradores pode ter contribuído para diferentes interpretações dos fenômenos.

A existência dessas pesquisas mostra que o caso continuou sendo revisitado muito depois dos relatos originais, à medida que novos documentos eram localizados e informações anteriores eram reavaliadas.

Entre relatos e evidências

O Fantasma de Cheltenham é um caso amplamente documentado. Existem relatos escritos, testemunhos de diferentes pessoas e registros da investigação conduzida por Frederic W. H. Myers para a Society for Psychical Research.

Também há registros sobre a família Despard, a história da residência e Imogen Swinhoe, antiga moradora da casa que morreu em 1878, antes dos primeiros relatos feitos por Rosina.

O que permanece sem resposta é a natureza dos fenômenos. A documentação não permite afirmar que a mulher de preto fosse realmente o espírito de Imogen Swinhoe, assim como não apresenta uma explicação natural capaz de esclarecer de forma definitiva todos os relatos.

Ao longo das décadas, pesquisadores propuseram diferentes interpretações para os acontecimentos. Algumas buscaram explicações ambientais ou psicológicas, enquanto outras consideraram a possibilidade de fenômenos paranormais. Nenhuma dessas interpretações, porém, transforma o caso em um fenômeno sobrenatural comprovado.

O que permanece é uma coleção histórica de testemunhos de pessoas que afirmaram ter visto ou ouvido algo incomum dentro daquela residência. A Society for Psychical Research registrou esses relatos no século XIX, e pesquisadores voltaram a analisá-los em diferentes momentos. A identidade da mulher foi sugerida, investigada e posteriormente reinterpretada.

Mas entre o testemunho de alguém que afirma ter visto uma aparição e a demonstração de que aquela aparição era realmente sobrenatural existe uma distância que a documentação disponível não consegue eliminar.

O Fantasma de Cheltenham permanece, portanto, não como um fenômeno sobrenatural comprovado, mas como um dos casos históricos de aparição mais cuidadosamente documentados de sua época e como uma história que continua a levantar questões sobre percepção, memória, ambiente e aquilo que as testemunhas acreditaram ter visto.

Referências

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